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Barcarola

Por Douglas Silva.

whitesquare

BARCAROLA

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eu e (você) andando

, de mãos emprestadas, quase pelas ruas,

sem olhar para cima nem pros lados nem pra frente,

porém em direção ao Futuro. Ou ao Eterno. Ou ainda ao Sublime.

Ou coisa que o valha, ou qualquer coisa

que não valha nada.

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eu (e você)

, nós dois, na noite quase escura,

pulando pelos paralelepípedos da rua asfaltada

brincando de amarelinha sem linhas nem pedra,

saltando por cima das regras, sem ligar a mínima,

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eu e “você”, sem fôlego, sem direção,

furando sinais, cruzando fora das faixas,

comprando coisas em lojas fechadas

na parte mais feia da cidade

temporariamente morta,

whitesquare

eu e “(você)”, sem tempo, sem horário, sem

pressa nem propósito,

cortando a vitrine com o diamante do anel que

estamos tentando roubar da vitrine

que estamos cortando

com o diamante do anel que ainda vamos roubar

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, eu e quase você, bêbados, desbundados, tontos de sono,

prostrados na praia artificial

polindo na areia plástica

a pedra do anel que a gente ia roubar

contando as estrelas que o dia já apagou

vendo o sol nascer às avessas

esperando o barco.

– Ó, lá vem o barco!

O barco.

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Esse é o primeiro poema do primeiro livro publicado pelo poeta carioca Paulo Henriques Britto, Liturgia da Matéria, de 1982. Compõe com outros dois a série “Três peças fáceis”, que vale muito a pena ser lida, assim como todo o restante de sua obra, uma série de poemas que se destaca por possuir um cuidado na composição que consegue nos deixar, em meio a todos os artifícios, com a impressão de que toda a (como ele mesmo dirá em outro poema, em outro livro) estrutura, a sua complexa “máquina lírica”, funciona sem qualquer ruído.

O poema apresentado é um poema de amor, mas de um amor que provoca estranheza por ser extremamente tranquilo. Sabemos desde cedo o que é um poema de amor e que geralmente passa, ou pela reflexão grave de suas qualidades, ou pelo erotismo ou ainda pela lamentação de uma espécie de desarranjo que veio a acontecer, que é possivelmente a sua forma mais comum. O poema de Britto, por sua vez, não teme nada que surja dessa experiência, nem mesmo os eventuais acidentes do impossível, nem mesmo a própria fragilidade de toda a ação. Eles simplesmente caminham e nem mesmo a efemeridade que surge a partir dos primeiros versos parece preocupar.

Eu e você. Talvez os mesmos dois caminhantes dos primeiros versos de The Love Song of J. Alfred Prufrock, primeiro poema publicado por T.S. Eliot: “Let us go then, you and I,/When the evening is spread out against the sky”. Entre ambos existe uma leve contenção que cheira a novidade, que transforma a incompletude dos atos no que há de especial neles. Eles não andam totalmente pelas ruas, nem de mãos completamente dadas. “Você” ainda está entre parênteses, ainda distante, um pouco intocado. As pausas das virgulas deslocadas em enjambement dão um espaço absoluto e fluidez ao primeiro verso e aos dois. Uma lista de caminhos possíveis que vai do eterno/sublime ao que não vale nada confirma uma incerteza que, surpreendentemente, não parece nada incômoda.

Junto de um ‘eu’ e de ‘você’ logo existe um ‘nós dois’ à la Tom Jobim. Nesse momento se tornam quase crianças, saltam de sílaba em sílaba nos pa-ra-le-le-pí-pe-dos impossíveis do asfalto e numa amarelinha sem linhas – a rua inteira? – Se não há pedras, se não há regras, não há jogo e o jogo até agora pouco importa. Até que surge algo de incômodo nas aspas que envolvem o “você”, na terceira estrofe. Uma mudança abrupta que nos coloca numa paisagem urbana. Não estão mais quase pelas ruas, estão ainda perdidos, mas no meio dela, na parte mais feia da cidade ou talvez só a parte mais feia de uma liberdade que parece ganhar aqui pela primeira vez um toque de perigo. A aventura é sem dúvida cinematográfica. Sem fôlego, os dois atravessam o trânsito, compram, e curiosamente é esse o modo pelo qual saem completamente de uma espécie de idílio que havia no começo, na velocidade de versos mais curtos.

Pela noite encontram em sua forma mais completa o que me parece ser o grande engenho do poema, o uso paradoxo e aí também parece estar a grande imagem do poema: a noite é só quase escura, há paralelepípedos no asfalto. É essa espécie de fantasia que também gera um crime cujo fim é a sua própria ferramenta. O diamante é o alvo e o instrumento para chegar a esse alvo e essa é a imagem do poema. A contraparte de ‘eu’ é um fim, mas também o percurso que leva a essa fim.

O crime parece mesmo ter sido perfeito: o amor foi, enfim, reinventado. De agora em diante a coisa amada transforma-se no amor. Mas não é assim tão simples e, no fim, toda a leveza parece ter seu preço. No outro dia a pausa de uma virgula vem antes dos dois. O sono e o álcool deixam ‘você’ também no quase que, entretanto, vejam só, apesar disso tudo aparece pela primeira vez sem parênteses ou aspas. A praia é artificial, de areia plástica. As estrelas já foram apagadas. Entretanto, elas ainda podem (e vão) ser contadas. Permanece, mesmo que mais fraco, o impossível. O tom do poema ainda é o mesmo, mesmo quando nos diz que a pedra, imperfeitamente, não foi roubada. Ainda assim ela é polida, pode vir a ter mais brilho. E o mais importante é que sempre no meio disso tudo chegará, abrupto, o esperado barco. O barco.blackdot

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