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O escárnio dos filósofos pagãos

Por Douglas Silva.

O texto que a seguir apresento é uma tradução de uma obra de autoria e data incertas. O seu título é O escárnio dos filósofos pagãos e seu autor se intitula, em todos os manuscritos que até nós chegaram, como “Hermias, o Filósofo”. Teria sido escrito entre os séculos II e III d.C., em função da semelhança com outros textos da época. É uma apologia cristã, isto é, um texto escrito por um cristão   para   defender   sua   fé   contra   determinado   argumento   ou  em determinada disputa.   Nesse   texto,   ele   usa   a máxima de que “o ataque é a melhor defesa” e o inimigo em questão é a sabedoria pagã, ou seja, a filosofia grega.

Sua   crítica   principal é   clássica:   a   ideia   de   que   nenhuma   escola filosófica se  aproximou da verdade, já que as verdades de cada uma são refutadas pelas outras e que, se aqueles homens realmente fossem sábios, chegariam a um consenso, em nome da verdade única, que num contexto teísta, seria uma verdade como revelação divina.

Muito se discute sobre a unidade do texto. A primeira afirmação do primeiro parágrafo é sem dúvida alguma uma afirmação cristã, mas é também a única do tipo. Durante o restante do texto não encontramos mais nenhuma citação, nem que indireta, ao cristianismo, o que levou alguns a crer que esse texto não era originalmente cristão, e sim judaico,   uma   vez   que   a   mesma   situação   desconfortável   entre   fé   e   razão   surgiu   no   contato   do judaísmo com o helenismo nos últimos século antes de cristo. Foram exatamente nesses séculos que foi elaborada a teoria, judaica, de que o conhecimento humano é fruto da apostasia (queda) dos anjos, apresentada também no primeiro parágrafo. Há também, no parágrafo 17 uma relação com o texto de Isaías 40:12, na versão da Septuaginta. Uma outra hipótese seria a de que um cristão dos primeiros séculos de nossa era usurpou a obra de um cético e somente adicionou a citação paulina. É bem plausível quando nos deparamos com a críticas ao pitagorísmo feitas no parágrafo 17, nas quais sua principal reclamação é a intervenção das ideias do filósofo naquilo que caberia a Zeus e Poseidon. Difícil imaginar um cristão usando tal argumento.

O texto em si é muito curioso. Escrito num grego simples e bem humorado, caminha numa ordem livre de Tales a Epicuro, discutindo os principais pontos de cada escola e usando o sarcasmo como única arma crítica. O autor se prende a teoria de cada um dos filósofos quanto ao princípio das coisas, fisicamente, inclusive para Platão e Aristóteles. É também cheio de referências à própria obra dos filósofos ou até mesmo às anedotas sobre eles surgidas, o que demonstra que o autor tinha sim algum conhecimento de causa.

Durante a tradução procurei manter o tom leve e a tradução considerada mais clássica de cada um dos termos filosóficos que surgem e, para isso, acompanhei até onde consegui as escolhas da equipe de tradução da primeira edição d’ Os Pré-­Socráticos, dos Pensadores, de 1973.

A edição utilizada para a tradução é a de Diels, de 1879, encontrada em seus Doxographi Graeci. O PDF com o texto grego dessa edição pode ser baixado aqui (copie o link em sua barra de endereços).

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O escárnio dos filósofos pagãos

1. Paulo,   o   apóstolo   bem-­aventurado,   ó   amados,   escrevendo   aos   Coríntios   que   habitam   a Lacônia, a Grécia, esclareceu dizendo: “A sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus”. Não disse com imprudência; parece­-me que a origem de tal sabedoria é encontrada na   apostasia   dos   anjos.   Por   isso   os   filósofos   expõem   uns   aos   outros doutrinas   nem consoantes nem homólogas.

2. Pois,   enquanto   uns   dizem   a   alma   ser   o   fogo,   outros   dizem   o   ar   (os   estoicos),   outros   a inteligência, outros o movimento (Heráclito), outros a exalação, outros o poder que flui dos astros, outros os números em movimento (Pitágoras), outros a água geradora (Hipão), outros o elemento nascido dos elementos, outros a harmonia (Dinarco), outros o sangue (Crítias), outros  o sopro, outros a unidade (Pitágoras) e, os  antigos, as coisas que são contrárias. Quantos discursos a respeito dessas coisas! Quantos esforços, quantas sentenças de sofistas, que mais disputam do que encontram a verdade!

3. Pois bem. Divergem a respeito da essência da alma, mas concordam nas outras questões a seu respeito; outros divergem sobre o seu prazer, um chama de “bem”, outro chama de “mal” e outros ainda dizem estar “entre o bem e o mal”. A respeito de sua natureza, alguns dizem ser   imortal,   outros   mortal.   Outros   dizem   que   permanece   por   pouco   tempo,   outros
bestificam­-na, outros a dividem em átomos, outros a encarnam três vezes, outros a limitam a períodos de três mil anos. Os que não vivem nem cem anos anunciam os três mil que estão por vir.

4. Como   convém   chamar   estas   coisas?   Parece-­me   que   de   fabulação,   estupidez,   loucura, polêmica   ou   de  tudo isso   ao   mesmo   tempo.   Se   eles   têm   descoberto   a   verdade,   que concordem ou que, em conjunto, aceitem. E eu, contente, serei convencido por eles. Mas se esticam   a   alma   e   puxam­-na   cada   um   para   uma   natureza   de  modo diferente,   para   outra essência, transformam a matéria a partir de matéria, eu confesso estar completamente aflito com esse refluxo dos fatos.  Agora sou imortal e me alegro. Logo em seguida, mortal me torno, e choro. E nesse exato momento divido-­me em átomos, torno-­me água, torno-­me ar, torno­-me fogo. E pouco depois nem ar, nem fogo; faz de mim fera, faz de mim peixe; novamente tenho irmãos golfinhos. e, quando me olho, temo o corpo e não sei como o chamaria:   se  de   homem, cão,   lobo,   touro,   ave,   serpente,   dragão   ou   quimera;   sou transformado   pelos   filósofos   em   todas  as   feras; terrestres,   aquáticas,   aladas,   variadas, selvagens, domésticas, mudas, de bela voz, irracionais, racionais: nado, voo, rastejo, corro, sento. E mesmo assim Empédocles também me faz de arbusto.

5. Por isso, não é possível aos filósofos em acordo encontrar a alma do homem; dificilmente a verdade a respeito dos deuses ou do mundo poderia se mostrar. Certamente, é coragem o que eles têm, para não dizer estupidez. Pois os que não são capazes de encontrar a própria alma buscam a natureza dos seus deuses e os que não enxergam nem o próprio corpo trabalham com a natureza do mundo.

6. Muito discordam uns com os outros a respeito dos princípios de natureza. Toda vez que Anaxágoras   me   acolhe,   me ensina   estas   coisas:   “O   princípio   de   todas   as   coisas   é   a inteligência e é a causa e o senhor de tudo: sistematiza o que é irregular, dá movimento aos imóveis, separação aos misturados e ordem aos desordenados”. Anaxágoras é meu amigo ao dizer tais coisas, sou convencido por sua doutrina.   Mas se levantam contra ele Melisso e Parmênides.   Parmênides proclama   com   palavras   poéticas   que   a   essência   uma   é,   eterna, imóvel e sempre semelhante. Então, novamente, não sei como, para essa doutrina me mudo. Parmênides tirou Anaxágoras da minha mente.

7. E   quando   pensei   que   seria   guiado   por   uma   doutrina   sólida,   Anaxímenes,   tomando­-me, responde aos gritos: “Mas eu te digo: o tudo é ar e esse, adensando­-se e condensando­-se, torna­-se água e terra. E tornando­-se este menos denso e se liquefazendo, torna-­se éter e fogo, e, retornando a sua própria natureza, ar”. Então me harmonizo novamente com estas coisas e gosto de Anaxímenes.

8. Empédocles, em posição, se ergue de dentro do Etna, aborrecido, gritando muito:  “Os princípios de todas as coisas são o ódio e a amizade, essa unindo, esse separando.  E  a disputa entre eles tudo cria. Separo estas coisas: as semelhantes e as diferentes, as ilimitadas e os que não têm fim, as eternas e as criadas”. Muito bem, ó Empédocles. Até mesmo na cratera de fogo te sigo.

9. Mas, Protágoras, de outro modo, ergue-­se e me puxa afirmando: “O homem é a medida e a definição das coisas; tanto das coisas que são subordinadas aos sentidos, quanto das que não estão na forma do ser”. Alegro­-me ao ser bajulado por Protágoras nesse discurso: ele atribui o todo, ou sua maior parte, ao homem.

10. De outra maneira Tales me mostra que a água é o verdadeiro princípio de tudo. A partir do úmido tudo se formou e nele se dissolve; a terra boía sobre a água. Por que então não me deixar   convencer   por   Tales,   o   mais   antigo   dos Jônios? Seu   conterrâneo,   Anaximandro, porém, diz o eterno movimento ser anterior ao úmido e que por ele as coisas são geradas e destruídas. Que também Anaximandro seja digno de fé!

11. E Arquelau, que mostra o principio das coisas ser o quente e o frio não é bem visto? Já o grandiloquente   Platão, também   a   ele   contrário,   não   diz   o   mesmo   e   afirma   serem   os princípios deus, a matéria e o modelo. Agora estou convencido. Como não acreditar  no filósofo que fabricou o carro de Zeus? Logo atrás, seu discípulo Aristóteles se apresenta, invejando o mestre da construção de carros. Este determina outros princípios, o fazer e o sofrer. O que faz sem [nada] sofrer, o éter. O que sofre tem quatro qualidades: o seco, o úmido, o quente e o frio. É da transformação dessas coisas em outras que tudo surge e se desfaz.

12. Já estamos cansados de sermos jogados pra cima e pra baixo pelas doutrinas e só não será assim se eu me agarrar à doutrina de Aristóteles e nenhum discurso me atrapalhar. O que mais   eu   sofreria?   Velhos   mais   antigos   que   esses com   cordas   controlam   minha   alma: Ferécides, que diz Zeus, Ctônia e Cronos serem os princípios; Zeus é o éter, Ctônia a terra e Cronos o tempo. Então o éter é o que faz, a terra é a que sofre e o tempo é onde as coisas acontecem. Quanta inveja desses velhos uns com os outros!  Leucipo, achando tudo isso uma grande bobagem, diz serem os princípios as coisas indeterminadas, as sempre móveis e as minúsculas;  As coisas mais leves, deslocando­-se para cima, tornam­-se fogo e ar, e as mais pesadas, ficando embaixo, tornam-­se água e terra.

13. Até   quando   estudarei   estas   coisas   sem   nada   de   verdadeiro   aprender?   Assim   só   será se Demócrito, de algum jeito, me afastar do erro, declarando serem os princípios o Ser e o Não­-Ser. O Ser é cheio e o Não­-Ser é vazio. E o cheio tudo faz no vazio, com evolução e ritmo. Da mesma forma eu me convenceria com o bom Demócrito, gostaria de com ele rir,
se não me dissuadisse Heráclito, chorando e falando ao mesmo tempo, que “o principio de tudo é o fogo e dois são seus estados: de rarefação e de densidade; um faz e o outro sofre; um   ajunta   e   o   outro   separa”.   É   o   suficiente   para mim,   já   estou   embriagado   com   tais princípios.

14. Mas Epicuro dali me chama e pede para não exagerar de maneira nenhuma na sua bela doutrina dos átomos e do vazio. Pois pela união variada e multiforme destes tudo é gerado e destruído. De ti não discordo, Epicuro, melhor dos homens. Mas Cleantes, levantando a cabeça fora do poço, escarnece de toda doutrina e retira da água os verdadeiros princípios: deus e matéria. E a terra se torna água, a água se torna ar (que é levado para cima); o fogo se desloca para o em volta da terra e a alma se espalha através da matéria do mundo, de que nós tomamos parte sendo dotados de alma.

15. Depois   desses   desse   tipo,   une-­se   a   mim   uma   outra   multidão   da   Líbia.   Carnéades   e Clitômaco (e quantos foram seus discípulos) , pisando em todas as doutrinas dos outros, mostram­-me, com termos precisos, que todas as coisas são incompreensíveis: há sempre uma representação, fantasia, encobrindo a verdade. Por que tenho sofrido todo esse tempo? Se nada é compreensível, a verdade escapa aos homens e a louvada filosofia mais luta com sombras do que tem a ciência dos seres.

16.  Outros agora vindos da velha escola, Pitágoras e seus companheiros, taciturnos e discretos, outras doutrinas me transmitem como mistérios. E ele mesmo me diz esta ser a grande e secreta [doutrina]: “o princípio de todas as coisas é a unidade e, a partir de suas formas e dos números, os elementos surgiram” . E Pitágoras esclarece o número, a forma e a medida de cada um deles: o fogo é composto por vinte e quatro triângulos retângulos, sendo cercado por quatro equiláteros. Cada equilátero é composto por seis triângulos retângulos, de onde se assemelham a pirâmide. O ar é constituído por quarenta e oito triângulos, sendo cercado por oito equiláteros. Assemelha­-se ao octaedro, que é constituído por oito triângulos equiláteros, dos quais cada um é separado em seis triângulos retângulos, de modo a serem produzidos os quarenta e oito ao todo. A água é constituída por cento e vinte triângulos, sendo cercada por vinte iguais e equiláteros e se assemelha ao icosaedro, que é composto por cento e vinte triângulos   iguais   e   equiláteros.   O   éter   é   formado   por   doze pentágonos   equiláteros   e   é semelhante ao dodecaedro. A terra é constituída por quarenta e oito triângulos e cercada por seis quadrados. É semelhante ao cubo, pois o cubo é constituído por seis quadrados, que são divididos em oito triângulos, de modo a serem, no total, quarenta e oito.

17. Então Pitágoras mede o mundo. E eu, ficando outra vez entusiasmado, subestimo a  casa, a pátria, a mulher e os filhos. Nada mais disso me importa. Eu mesmo subo até o próprio éter e, tomando a régua de Pitágoras, começo a medir o fogo. Pois não é suficiente que Zeus o faça. Depois que eu também tiver medido o fogo, Zeus aprenderá quantos ângulos ele tem. E desço do céu comendo azeitonas, figos, legumes, verduras; tomo o caminho mais rápido em direção à água. E, com a régua, o dátilo e o meio­-dátilo meço a substância úmida e calculo sua profundidade, para que também ensine a Poseidon a quantidade de mar que ele governa. E toda a terra em um dia percorro, a medir sua proporção, medida e forma. Creio que não deixarei, sendo   assim   tão   importante,   escapar   nem   um   palmo   de   todo   o   mundo.   Sei   o número das estrelas, dos peixes, das feras. Ponho calmamente numa balança o mundo e sou capaz de descobrir seu peso.

18. Até agora a minha alma tem se esforçado em torno dessas coisas para controlar o todo. Epicuro,  irritando-se,   me diz: “Tu   mediste   um   mundo,   meu   caro,   mas   existem   muitos mundos, infinitos”. Mais uma vez sou forçado a medir outros céus, outros éteres e estes são muitos .Vamos então, não mais tardando, para os mundos epicúreos. Me mudarei com as provisões de poucos dias. Facilmente sobrevoo Tétis e Oceano sob os confins. Indo para um novo mundo como quem vai para uma outra cidade, meço todas as coisas em poucos dias. Subo então para um terceiro mundo, depois para um quarto, quinto, décimo, centésimo, milésimo e quantos mais? Tudo é para mim uma completa escuridão de ignorância, um erro negro, divagação  infinita,   fantasia   inútil  e   estupidez   incompreensível.  A   não  ser  que  eu também possa medir os próprios átomos, dos quais tais mundos surgiram, para que nada fique desconhecido, principalmente dentre as coisas necessárias, úteis, de onde a casa e cidade tiram sua alegria.

19. Percorri essas coisas desejando mostrar a essência contrária dessas doutrinas e como acabam no   infinito   e   no indeterminado.   A   investigação   e   o   fim   das   coisas   são   incertos   e desnecessários   e   não   têm   sido comprovados   claramente   nem   com   ações,   nem   com evidências, nem com discursos seguros. blackdot

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