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Tempos pós-modernos

Por Igor Cardoso.
III. Sobre os rastros do tempo

No último texto postado por mim neste blog, tentei fazer um breve retrospecto da luta entre duas grandes correntes historiográficas na segunda metade do século XX, a saber, os Annales e o marxismo, a respeito da verdade histórica. Tentei esboçar um plano geral da discussão sobre a possibilidade da verdade no conhecimento histórico pós-moderno. Vários outros intelectuais também deixaram vasto legado sobre a questão, dentre eles estão: Hegel, Dilthey, Weber, Collingwood, De Certeau, Foucault, Ricoeur, Koselleck… Ela, contudo, felizmente, ainda anima a reflexão de alguns historiadores: o conhecimento histórico pode oferecer verdade? Em que grau? Qual é a fronteira entre realidade e ficção? São essas as perguntas que norteiam a presente postagem.

… diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, esta o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens; particular pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu. (Aristóteles, Poética, 1451 b)

A passagem acima transcrita de Aristóteles, na Poética, é tão conhecida quanto conturbada. Transformou-se em instrumento de combate pela relativização da fronteira entre poesia e história, bem como a defesa de limites entre ambas.

Para o historiador italiano C. Ginzburg, Aristóteles nada teria dito contra os episódios; o que ele rechaçou, na verdade, foi a narração onde os episódios se seguem ao acaso, sem inteligibilidade. Ele acusa H. White, ao voltar-se para a Retórica, de privilegiar na historiografia unicamente as estratégias de convencimento; o fim último de sua eficácia em oposição à busca pela verdade; e a auto-referência do texto contra sua necessária referência externa.

É nesta obra, e não na Poética, diz Ginzburg, que Aristóteles teria identificado o núcleo racional da retórica, as provas. De acordo com ele, o historiador responsável não estaria livre para escrever poeticamente de acordo com o que lhe conviesse, mas deveria basear-se em provas, arquivos, que, se bem analisados, levar-no-iam a um espectro de leituras possíveis. As fontes são delimitadoras das interpretações do passado. Seu trabalho assemelha-se ao do policial, do psicanalista, do médico que tem indícios, sintomas, sinais à sua frente e deve observá-los atentamente, registrando-os com extrema minúcia em suas particularidades. Nesse sentido, o historiador deveria ter sensibilidade para identificar o específico, o singular, que a documentação apresenta, e, enfim, interpretá-lo.

Historiador famoso da micro-história, Ginzburg ainda defende uma descrição minuciosa do comportamento humano para se chegar a resultados mais realistas, menos relativistas. As grandes vantagens da micro-história, caracterizada pelo realismo, são a cautela do historiador quanto a generalizações e o alargamento dos temas possíveis e dos instrumentos de trabalho. Mas, de acordo com J. Fontana, ela não deve se tornar um conhecimento científico em si, pois corre o perigo de cair em um conhecimento fútil e de pouca relevância para a sociedade.

Para P. Ricoeur, a narrativa não reduplica o passado, mas o representa por analogia, sem perder de vista os rastros deixados por ele. Cabe ao historiador interpretar os signos dos rastros, através de monumentos, ruínas, documentos, que exercem a função de “representância do real”. Desse modo, os rastros possuem função de referência indireta com o passado e agem como prova na explicação do passado. É assim que o valor ficcional, em seu valor tropológico de conduzir à inteligibilidade um sistema de signos, torna nossa própria cultura familiar a nós.

Não devemos, assim, recuar a questão do impacto da literatura sobre a experiência cotidiana. O trabalho deve ser dirigido na distinção entre história e literatura, que deve ser realizado com rigor. O procedimento não impede abrir o espaço para a convergência entre real e ficção, pois somente no entrecruzamento entre um e outra que é possível a refiguração efetiva do tempo. Nossas experiências não se limitam às ações concretas, mas estão entremeadas de sonhos, desejos, expectativas, contingências, sofrimentos, que fazem parte do tempo humano.

Caso contrário,

ratifica-se paradoxalmente o positivismo que geralmente se combate, a saber, o preconceito de que só é real o dado tal como pode ser empiricamente observado e cientificamente descrito. Por outro, encerra-se a literatura num mundo em si e quebra-se a ponta subversiva que ela volta contra a ordem moral e a ordem social. (RICOEUR, 1994. p. 121)

A referência metafórica consegue revelar nosso ser-no-mundo, que não pode ser dito de maneira direta, na intenção de fazer ver o ver-como na correlação do ser-como. O caráter indireto da poética expande o potencial de conhecimento do mundo em que vivemos, através da nova pertinência que o enunciador metafórico estabelece no nível do sentido, permitido pela polissemia inicial de nossas palavras. Ricoeur faz um apelo aos historiadores a deixar de lado o preconceito contra sua própria linguagem, como se ela pudesse ser completamente transparente, a ponto de deixar falar os próprios fatos. Desconsiderar o alcance que a ficção tem sobre a realidade é esquecer como a literatura é capaz de nos tornar sensíveis a experiências antes despercebidas.

Qualquer investigador deve seguir as trilhas deixadas pelo rastro com o relógio na mão e o calendário no bolso, isto é, seu trabalho está necessariamente vinculado à datação do rastro para que possa remontá-lo no tempo e assim decifrá-lo. As lembranças da memória coletiva só podem ser datadas se inscritas no tempo do calendário, que não deixa de ser um artifício, um instrumento o qual permite o trabalho profícuo do investigador. Assim, o historiador somente se põe a rastrear o passado tal como foi à medida que frequenta os arquivos e consulta os documentos. Eles tornam-se a referência externa no discurso do historiador, a prova da qual ninguém pode acusá-lo de invenção.

É exatamente na utilização dos documentos que a linha divisória entre história e ficção torna-se nítida. “O historiador está submetido ao que, um dia, foi. Ele tem uma dívida para com o passado, uma dívida de reconhecimento para com os mortos, que o transforma num devedor insolvente.” (RICOEUR, 1994, p. 242) O esforço parte, então, para a reconstituição pura da verdade, mesmo se já sabemos da sua impossibilidade epistemológica de alcance. Está na intenção do historiador, de seu compromisso com a verdade, bem como o respeito aos mortos, que a metodologia de investigação torna-se então responsável perante a humanidade. Os sujeitos tornam-se responsáveis, enquanto o passado exige do discurso histórico, por meio dos documentos conhecidos, uma retificação sem fim.

O apelo de justiça com o passado dá-se na voz do historiador, em que ele representa a todos nós, leitores de sua obra. A relação entre passado e presente é, enfim, a de uma dívida não paga. E se os acontecimentos relatados não coincidem com o passado, pois a reconstrução é sempre diferente do real, eles permitem um novo entendimento, uma nova “refiguração”, um novo olhar sobre o passado. Contudo, a possibilidade de infinitas revistas para trás credencia a comunidade historiográfica a múltiplas verdades. Seria, pois, a constatação da pulverização de uma verdade? E isso não levaria consequentemente ao fim de uma ética comum possível?

A pluralidade de verdades não quer dizer a inexistência delas, nem a disseminação de uma única verdade absoluta. Quer dizer, voltar a atenção aos discursos de outros lugares. Tentar ouvir as outras éticas é procurar habituar-se a pensar em termos de lugar e não em termos do universal. O conhecimento histórico é, mesmo que parcial, limitado e temporal, uma reflexão sobre a vivência do homem no tempo. A divergência entre os historiadores torna-se favorável à verdade, já que os adversários filtram a argumentação e a documentação uns dos outros.

Pode-se dizer que é impossível a neutralização ética, que convém mais à história que deseja se distanciar do passado para melhor compreendê-lo e explicá-lo. A questão torna-se mais clara quando pensamos em Auschwitz, um passado tão recente, que é latente doído no nosso presente. A essa questão, a neutralização ética não é possível nem desejável, pois o historiador deve ter a sensibilidade de compreender a dificuldade de se narrar. A consciência histórica é, antes de ser um conhecimento científico-poético, um estágio de convivência e interação humana, onde o respeito com o outro e a responsabilidade do agir assumem a expressão dos princípios éticos da humanidade. O silêncio quanto ao Holocausto, por muito tempo, foi a reparação possível às vítimas do horror.

A questão, todavia, permanece em aberto, pois cabe a cada homem o trabalho de assumir suas responsabilidades de tomar para si as consequências de seus atos, permitindo-se, enfim, agir de acordo com sua consciência histórica.

REFERÊNCIAS:
• ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores)
• RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. Trad. Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1994. Tomo III.

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