Tag Archives: Pós-modernidade

Tempos pós-modernos

Por Igor Cardoso.

II. A realidade em história

A periodização, exercício fulcral de qualquer historiador, é praticada sem a menor timidez, com toda razão, para delimitar o tempo e por ordem cronológica aos fatos. Obviamente, não estou a dizer que o trabalho do historiador se resuma à datação, mas ela é condição prévia, o primeiro passo de uma pesquisa histórica. Sua função também é de dar marco, estabelecer relevos que orientem o horizonte do historiador. É por isso que o ano de 1989 é tão importante para simbolizar a entrada do pós-modernismo, também chamado de pós-estruturalismo. Pode-se pensar que seu nome já traduz o significado: a nova onda veio lavar o que se fazia antes de 1989, ou seja, o estruturalismo. Todavia, corremos perigo de simplificação ao fazer tal afirmação, pois o estruturalismo já não poderia apresentar traços da pós-modernidade? Na mesma direção, podemos afirmar que nem sempre o pós-89 pode ser traduzido como pós 1989.

No primeiro texto, tentei argumentar como a historiografia anda junto de seu tempo e como sua prática não se encontra isolada de outras práticas contemporâneas. Terminei o artigo afirmando que devemos nos esforçar se quisermos mudar qualquer coisa. E se para a ação, buscamos entender onde que essa onda pode desaguar, é preciso antes olhar para trás, para que tenhamos o mínimo de consciência de nossos atos hoje a visar o amanhã.

Se o ano de 1989 é a data que marca o triunfo do capitalismo, a queda do Muro de Berlim, e o de 1991, o fim da URSS e com ela o fim das utopias socialistas, podemos estabelecer o ano de 1945 como a inauguração do estruturalismo na disciplina história. É a data em que duas correntes historiográficas ganham força na Europa e no mundo, a saber, o marxismo e a dita “Escola dos Annales”, através da publicação de textos acadêmicos pela revista Annales d’histoire économique et sociale, com início da publicação em 1929.

Elas são modernas e pós-modernas. O estruturalismo na história é moderno porque pretende abordar uma espécie de determinismo inconsciente das ações humanas, decodificar as dimensões ocultas das sociedades, buscando a “verdade da história” na tentativa de levar o homem à lucidez e à liberdade. Filho da Razão iluminista, o estruturalismo acreditava levar a humanidade ao progresso, movido pela tentativa de construção de uma síntese global, de uma história que abarcasse todos e tudo. Por outro lado, é combatente dessa estratégia moderna, pois desconfiada do sujeito, da consciência e da Razão, propõe novas avaliações e métodos para fazer história.

Na década de 60 / 70 os dois grupos historiográficos travaram verdadeiros combates ideológicos (esquerda / direita) em suas produções, que não devem ser entendidos como um resumo de suas diferenças. Tais posturas também escondem divergências epistemológicas, ainda que um olhar para as semelhanças entre ambas as correntes apontem um caminho mais conciliador. Este é o caso de alguns historiadores participantes da revista dos Annales, que também entraram e saíram das fileiras do PCF (Parti Communiste Français).

Para os historiadores marxistas sua teoria é “estrutural da mudança”, quer dizer, eles seguem dados que se repetem, parâmetros que permanecem, e insistem na hierarquia de base e superestrutura dos fenômenos econômicos / sociais a fim de sistematizar um conjunto de elementos que explique as mudanças nas civilizações. A atenção se volta não para a estrutura em si da teoria, mas para a relevância científica em que ela sustenta transformações sociais, denunciando as contradições do sistema e as lutas e interesses distintos entre as classes sociais, para que enfim os homens subjugados se emancipem da dominação das elites econômicas através da revolução.

Conhecedores da exploração entre homens, os historiadores deveriam, portanto, ter engajamento nos movimentos sociais e compartilhar os valores teleológicos que orientavam a ação. O passado ficava cada vez mais pretérito, pois o presente, na ânsia de atingir os projetos futuros, rejeitava seu próprio campo de experiência. Mas as expectativas não foram satisfeitas, as utopias socialistas se mostraram longínquas demais.

Em pleno século XXI, mesmo após a ruína da maior potência comunista, seria possível a existência do marxismo? Parece que para o Ocidente não lhe interessa mais o combate, a violência, a insurgência como protesto, como meio de transformação. Os últimos seguidores marxistas encolhem-se sob a escola de historiadores ingleses, da qual participa E. Hobsbawm – o silêncio dos novos historiadores marxistas é constrangedor.

Para a reconstrução do tempo histórico dos Annales, o método empregado foi o tratamento tecnicista da massa documental, que deveria ser serial e repetida. Por meio dele, com a ajuda de outras disciplinas, como a geografia e a antropologia, emergiriam as generalizações e conjunturas, que ocultavam ações individuais e exceções que pudessem confrontar o modelo teórico proposto. Os homens foram postos na linha da “longa duração do tempo”, quer dizer, privilegiou-se o estudo das permanências de uma época, da mentalidade dos indivíduos, das macro-economias, das massas de consumidores, que se tornavam passivas, sem ação, diante o próprio sofrimento.

Assumindo uma postura científica, que deveria ser neutra, os historiadores dos Annales não procuravam se envolver diretamente nos assuntos políticos. Daí é que muitas das críticas marxistas voltaram-se contra a escola francesa. Ela foi acusada de ser anti-revolucionária, de estar a serviço do capital e estimar a conservação econômico-social de então, transformando as lutas de classes em apenas mais um número na estatística de eventos, que somente oscilava diante novos confrontos. Os historiadores atacados se defenderam: não haveria um motor único da história, um determinante econômico que causasse as transformações sociais; na verdade, o esforço em buscar uma “verdade estrutural” deveria ser concentrado em vários determinantes estruturais que interagissem entre si. Por isso tanto buscavam, em outras formas de conhecimento social, elementos que pudessem explicar suas teses.

A simbiose de várias disciplinas foi estratégia utilizada pelos Annales, ainda na primeira geração da revista, na década de 30, com M. Bloch. Também Braudel, já na década de 50, valeu-se dela para enfrentar as duras críticas provindas da antropologia, de L. Strauss. A história dos Annales pós-89 também se flexibilizou diante a nova crítica historiográfica. Em nossos dias, a micro-história italiana e a história de gênero americana são bem conhecidas e praticadas pelos Annales, bem como a história cultural produzida pelo francês R. Chartier, que é referência internacional.

O intuito desta nova crítica é o de desmascarar a pretensão de então em produzir história cientificamente, neutra, capaz de estar fora da força gravitacional da cultura. Eles insistem em recolocar a operação histórica em seu lugar social, pois o ofício do historiador também possui implícito o desejo de dar sentido ao passado, do domínio sobre os acontecimentos, realizado pelo uso ideológico e de seus valores e moral. O que se busca nesta nova historiografia é o afastamento entre historiador e os agentes pretéritos, pois ele agiria como limite do discurso histórico. A pretensão é quase científica, ainda que não expressa; ao contrário, é severamente questionada.

Para estes teóricos, os relatos históricos não coincidem com o passado. Alegam a impossibilidade de atingir a verdade dos acontecimentos e por isso a história se transforma quase em completa ficção, com a contribuição da inexatidão da linguagem de ontem e hoje. Esta linguagem estaria comprometida pelo seu uso tropológico, comum apenas àquela comunidade, naquele tempo.

A síntese global, objetivo pretendido por ambas correntes estruturalistas, foi esquecida em meio a fragmentadas verdades. Aliás, a verdade histórica não é mais buscada, já que não é mais essencial. Não há finalidade que guie a ação, nem direção a seguir. A consciência histórica perdeu de vista a reconstituição do passado tal como foi e beira, agora, à função de mero entretenimento social, através de uma linguagem poética. O pós-modernismo, ao relativizar a verdade, também relativiza a ética. O trabalho do historiador fica indevidamente descomprometido com o real. Se não podemos chegar à exatidão dos acontecimentos tais quais foram, poderíamos, então, abandonar o passado à revelia da imaginação poética de cada narrador? O que seria, pois, pensar em história senão antes um compromisso com a verdade? blackdot

3 comentários

Filed under História

Tempos pós-modernos

Por Igor Cardoso.

I. A tragédia da vida

O que há em comum entre jogos eletrônicos, desejo por viagens e produção historiográfica hoje? Certamente, uma das primeiras respostas que teremos será o ambiente em que eles se expressam. Mas é sempre difícil pensar em apenas um ambiente, quando partimos do pressuposto em refletir algo geral, que seja compartilhado por toda a civilização ocidental. Aceitemos de início, então, que o Ocidente vive modos plurais de vidas e com diferentes indivíduos, que possuam diferentes visões de mundo. Mesmo assim, não poderemos estabelecer conexões entre rico e pobre, Norte e Sul, centro e periferia, erudito e popular, que se integrem numa rede comum de convivência, onde todos estão interligados se afetando mutuamente? Espero desenhar, aqui, um esboço da relação entre história e pós-modernidade, que não tome tanto o particular como a regra, nem anule as diferenças em favor de uma explicação mais geral.

Para tal empreendimento, a validade de análise de qualquer historiador fica comprometida, pois seu objeto é o passado recente e suas consequências ainda estão se desabrochando. Provavelmente, elas darão margem, no futuro, para uma nova leitura deste passado, hoje, presente. Contudo, tal constatação não é justificativa para ignorarmos o que vivemos, deixando-o livre de compreensão, a qual se mostra fundamental aos nossos horizontes de expectativas, caso queiramos melhorar nossas próprias condições de vida. Portanto, a questão enunciada é legítima para delimitarmos nosso campo de atuação e termos a consciência que o melhor esforço faz parte de uma compreensão parcial, não definitiva, já atrasada, pois a produção do homem é veloz, múltipla e em escala global.

Para começar uma série de discussões sobre o tema da produção historiográfica, já digo de uma vez algo óbvio, mas pouco refletido seriamente (e questionado) fora dos círculos de historiadores: a historiografia também deve ser historicizada, quero dizer, ela também é fabricada ao meio de conjunturas políticas, econômicas, sociais, culturais, estéticas, naturais (clima, geográfica, etc.), psíquicas, inerentes a seu tempo. Elas alteram a capacidade do homem na produção do meio em que vive e, portanto, também de seu passado, já que a humanidade sempre faz perguntas novas de seu presente para o já acontecido. Para entendermos a historiografia hoje devemos, então, situar a história dentro da história, perguntar que tempo é este em que ela está sendo feita.

A produção historiográfica no século XXI está inserida ao meio da inquietante obsessão de adultos por videogames, do desejo incessante por momentos de ócio, do surgimento de festas que não tem fim, da formação de múltiplas tribos urbanas… O fim da bipolarização entre capitalismo e comunismo descentralizou os centros políticos e econômicos. Assim também ficaram os novos grupos urbanos, que marcados por fenômenos linguísticos, corporais, indumentários, religiosos, musicais, voltam a dar vida aos grupos locais, antes marginais. Andar em grupo pressupõe compartilhar alguns dos tais fenômenos de expressão social, que fazem identificar seus membros participantes. Todavia, na pretensão de se singularizarem perante os outros, estas tribos acabam reclamando sua própria inserção na sociedade, onde podem desfrutar os benefícios que a nova ordem promete. A aceitação da multiplicidade de modos de vida é sua marca registrada.

Raros são os indivíduos que se veem sozinhos, incólumes aos modos de vidas arcaicos que se assentam, muitas vezes, mais exaltados que analisados por estudiosos. As experiências de vida destas tribos, cada uma com suas singularidades, devem ser imaginativas, criativas e inventivas, pois, oprimidas, é no instinto que encontram forma de se extravasarem. As tribos urbanas dão vida ao primitivismo, ao bárbaro, num retorno à saudação dionisíaca de ver despreocupadamente a realidade. Aliás, realidade esta fragmentada, pois múltipla, tornou-se símbolo da nova lógica operante, o self-made man. Cada homem constrói seu próprio caminho, desde que esteja acomodado à nova situação societal, de modo que todos (pretensamente) podem planejar viagens, ir aos supermercados, ver filmes, escutar músicas, participar de campeonatos esportivos, frequentar shows, comprar…

Vive-se intensamente cada instante de vida na incerteza de um amanhã. O planejamento do próximo momento de ócio é a espera eterna no presente. A viagem prometida no início do ano é aguardada, com ansiosa expectativa, até sua realização. Ela chega, mas passa num instante, aproveitada freneticamente. Os bailes funk, manifestação evidente de um paganismo de espírito, são a explosão destes instantes imóveis, dos quais se pode tirar o máximo de gozo. A cultura do prazer “é causa e efeito de uma ética do instante, de uma acentuação das situações vividas por elas mesmas, situações que se esgotam no ato mesmo.” Para M. Maffesoli, a sociedade vive um momento trágico, não num sentido pejorativo, mas das efervescências múltiplas, da “intensificação da vida nos nervos”, que expressam a vitalidade crescente dos grupos humanos no início deste milênio.

Bem como as sociedades primitivas o tempo que se vive atualmente é cíclico, marcado pelos rituais que fazem retornar o antigo no novo. Tão logo passaram as férias de fim de ano, o carnaval já é visto no horizonte da próxima folia. Todos os anos são a renovação de uma nova esperança pela conquista do campeonato de futebol: este ano o meu time não ganhou, ah, mas ano que vem… O mito da regeneração do tempo permite o homem vencer a brevidade de sua vida e a se conformar com a sociedade tradicional. As inovações por ele acreditadas já são previstas e ao mesmo tempo absorvidas pela rede relacional em que se situa. Desse modo, o horizonte de expectativa da humanidade é sempre revigorado, com mais força e energia para se movimentar por um futuro que vem, sempre melhor. O tempo se torna um eterno adolescente, assim como os sujeitos no tempo.

O modo de vida juvenil é predominante no mundo ocidental. Quem não conhece aquele adulto brincalhão e divertido? Ele usa roupas descoladas, reduz a infinitude de possibilidades do campo linguístico às gírias, é jovem até na maneira de pensar, e ainda permanece jogando o videogame, o mesmo que década atrás tanto o encantou. O ciberespaço é a marca pela busca do homem por um mundo mais virtual, lúdico, fora da realidade concreta em que vive. A confusão entre realidade e ficção dá forma ao retorno do tempo mítico, o re-encantamento do mundo.

A produção historiográfica também possui sua versão encantada do mundo, pois ela igualmente habita este espaço de experiências relatado. Ela é visível na forma em que se reproduz no passado. O deslocamento do olhar do historiador pós-89 passou do coletivo para o individual, da luta de classe para a miscigenação delas, das revoltas violentas para as resistências pacíficas. As narrativas de vidas de personagens não centrais nos acontecimentos ganham relevo e passam a competir (e até conquistar) o espaço de homens de Estado e artistas antes incontestáveis. Nosso mundo dionisíaco volta o olhar para as negociações de posições entre membros de classes distintas e como elas possibilitaram melhorias concretas de vida para quem as soube fazer. A escrava que se deixou prostituir ao seu senhor galga melhores posições na estrutura societária. Não nos interessa mais saber sobre a resistência combativa do operariado contra os capitalistas, mas como esses souberam barganhar por direitos trabalhistas.

No campo da epistemologia da história, a disciplina foi, por vezes, ora igualada à literatura, ora questionada em sua própria veracidade a que se propunha narrar. Os documentos deixaram de ser centrais para a análise histórica e a retórica ganhou espaço na narrativa. As ficções verbais, inerentes a qualquer forma de linguagem, para H. White, colocaram o ofício do historiador, antes, como o de um literato. A multiplicidade de versões possíveis, assim, é estendida com leveza ao passado. O que antes, obrigatoriamente, deveria ser narrado como uma tragédia, hoje, pode ser visto até como algo cômico. Num mundo onde não existe mais a tensão entre os dois grandes polos antagônicos, o fardo da história não assombra mais a consciência do historiador, pois, onde estarão os inimigos? Contra quem lutar? E por quem? A sujeição da classe industrial, no século XIX, sobre o operariado das fábricas inglesas tornou-se um momento histórico específico, sem relação com as experiências passadas de lutas entre classes. As conexões entre um e outro foram rompidas. Agora, o que temos são histórias descontínuas, sem grandes periodizações. O passado se aliena de nós, ao mesmo tempo em que nosso horizonte de expectativa se expande. As consequências ainda são incertas, mas, numa análise parcial, podemos enxergar ganhos e perdas, inovações e permanências desta herança. Cabe a nós todos trabalhá-la. blackdot

Referência:

MAFFESOLI, Michel. O instante eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. São Paulo: Zouk, 2003.

Deixe um comentário

Filed under História