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Tempos pós-modernos

Por Igor Cardoso.

I. A tragédia da vida

O que há em comum entre jogos eletrônicos, desejo por viagens e produção historiográfica hoje? Certamente, uma das primeiras respostas que teremos será o ambiente em que eles se expressam. Mas é sempre difícil pensar em apenas um ambiente, quando partimos do pressuposto em refletir algo geral, que seja compartilhado por toda a civilização ocidental. Aceitemos de início, então, que o Ocidente vive modos plurais de vidas e com diferentes indivíduos, que possuam diferentes visões de mundo. Mesmo assim, não poderemos estabelecer conexões entre rico e pobre, Norte e Sul, centro e periferia, erudito e popular, que se integrem numa rede comum de convivência, onde todos estão interligados se afetando mutuamente? Espero desenhar, aqui, um esboço da relação entre história e pós-modernidade, que não tome tanto o particular como a regra, nem anule as diferenças em favor de uma explicação mais geral.

Para tal empreendimento, a validade de análise de qualquer historiador fica comprometida, pois seu objeto é o passado recente e suas consequências ainda estão se desabrochando. Provavelmente, elas darão margem, no futuro, para uma nova leitura deste passado, hoje, presente. Contudo, tal constatação não é justificativa para ignorarmos o que vivemos, deixando-o livre de compreensão, a qual se mostra fundamental aos nossos horizontes de expectativas, caso queiramos melhorar nossas próprias condições de vida. Portanto, a questão enunciada é legítima para delimitarmos nosso campo de atuação e termos a consciência que o melhor esforço faz parte de uma compreensão parcial, não definitiva, já atrasada, pois a produção do homem é veloz, múltipla e em escala global.

Para começar uma série de discussões sobre o tema da produção historiográfica, já digo de uma vez algo óbvio, mas pouco refletido seriamente (e questionado) fora dos círculos de historiadores: a historiografia também deve ser historicizada, quero dizer, ela também é fabricada ao meio de conjunturas políticas, econômicas, sociais, culturais, estéticas, naturais (clima, geográfica, etc.), psíquicas, inerentes a seu tempo. Elas alteram a capacidade do homem na produção do meio em que vive e, portanto, também de seu passado, já que a humanidade sempre faz perguntas novas de seu presente para o já acontecido. Para entendermos a historiografia hoje devemos, então, situar a história dentro da história, perguntar que tempo é este em que ela está sendo feita.

A produção historiográfica no século XXI está inserida ao meio da inquietante obsessão de adultos por videogames, do desejo incessante por momentos de ócio, do surgimento de festas que não tem fim, da formação de múltiplas tribos urbanas… O fim da bipolarização entre capitalismo e comunismo descentralizou os centros políticos e econômicos. Assim também ficaram os novos grupos urbanos, que marcados por fenômenos linguísticos, corporais, indumentários, religiosos, musicais, voltam a dar vida aos grupos locais, antes marginais. Andar em grupo pressupõe compartilhar alguns dos tais fenômenos de expressão social, que fazem identificar seus membros participantes. Todavia, na pretensão de se singularizarem perante os outros, estas tribos acabam reclamando sua própria inserção na sociedade, onde podem desfrutar os benefícios que a nova ordem promete. A aceitação da multiplicidade de modos de vida é sua marca registrada.

Raros são os indivíduos que se veem sozinhos, incólumes aos modos de vidas arcaicos que se assentam, muitas vezes, mais exaltados que analisados por estudiosos. As experiências de vida destas tribos, cada uma com suas singularidades, devem ser imaginativas, criativas e inventivas, pois, oprimidas, é no instinto que encontram forma de se extravasarem. As tribos urbanas dão vida ao primitivismo, ao bárbaro, num retorno à saudação dionisíaca de ver despreocupadamente a realidade. Aliás, realidade esta fragmentada, pois múltipla, tornou-se símbolo da nova lógica operante, o self-made man. Cada homem constrói seu próprio caminho, desde que esteja acomodado à nova situação societal, de modo que todos (pretensamente) podem planejar viagens, ir aos supermercados, ver filmes, escutar músicas, participar de campeonatos esportivos, frequentar shows, comprar…

Vive-se intensamente cada instante de vida na incerteza de um amanhã. O planejamento do próximo momento de ócio é a espera eterna no presente. A viagem prometida no início do ano é aguardada, com ansiosa expectativa, até sua realização. Ela chega, mas passa num instante, aproveitada freneticamente. Os bailes funk, manifestação evidente de um paganismo de espírito, são a explosão destes instantes imóveis, dos quais se pode tirar o máximo de gozo. A cultura do prazer “é causa e efeito de uma ética do instante, de uma acentuação das situações vividas por elas mesmas, situações que se esgotam no ato mesmo.” Para M. Maffesoli, a sociedade vive um momento trágico, não num sentido pejorativo, mas das efervescências múltiplas, da “intensificação da vida nos nervos”, que expressam a vitalidade crescente dos grupos humanos no início deste milênio.

Bem como as sociedades primitivas o tempo que se vive atualmente é cíclico, marcado pelos rituais que fazem retornar o antigo no novo. Tão logo passaram as férias de fim de ano, o carnaval já é visto no horizonte da próxima folia. Todos os anos são a renovação de uma nova esperança pela conquista do campeonato de futebol: este ano o meu time não ganhou, ah, mas ano que vem… O mito da regeneração do tempo permite o homem vencer a brevidade de sua vida e a se conformar com a sociedade tradicional. As inovações por ele acreditadas já são previstas e ao mesmo tempo absorvidas pela rede relacional em que se situa. Desse modo, o horizonte de expectativa da humanidade é sempre revigorado, com mais força e energia para se movimentar por um futuro que vem, sempre melhor. O tempo se torna um eterno adolescente, assim como os sujeitos no tempo.

O modo de vida juvenil é predominante no mundo ocidental. Quem não conhece aquele adulto brincalhão e divertido? Ele usa roupas descoladas, reduz a infinitude de possibilidades do campo linguístico às gírias, é jovem até na maneira de pensar, e ainda permanece jogando o videogame, o mesmo que década atrás tanto o encantou. O ciberespaço é a marca pela busca do homem por um mundo mais virtual, lúdico, fora da realidade concreta em que vive. A confusão entre realidade e ficção dá forma ao retorno do tempo mítico, o re-encantamento do mundo.

A produção historiográfica também possui sua versão encantada do mundo, pois ela igualmente habita este espaço de experiências relatado. Ela é visível na forma em que se reproduz no passado. O deslocamento do olhar do historiador pós-89 passou do coletivo para o individual, da luta de classe para a miscigenação delas, das revoltas violentas para as resistências pacíficas. As narrativas de vidas de personagens não centrais nos acontecimentos ganham relevo e passam a competir (e até conquistar) o espaço de homens de Estado e artistas antes incontestáveis. Nosso mundo dionisíaco volta o olhar para as negociações de posições entre membros de classes distintas e como elas possibilitaram melhorias concretas de vida para quem as soube fazer. A escrava que se deixou prostituir ao seu senhor galga melhores posições na estrutura societária. Não nos interessa mais saber sobre a resistência combativa do operariado contra os capitalistas, mas como esses souberam barganhar por direitos trabalhistas.

No campo da epistemologia da história, a disciplina foi, por vezes, ora igualada à literatura, ora questionada em sua própria veracidade a que se propunha narrar. Os documentos deixaram de ser centrais para a análise histórica e a retórica ganhou espaço na narrativa. As ficções verbais, inerentes a qualquer forma de linguagem, para H. White, colocaram o ofício do historiador, antes, como o de um literato. A multiplicidade de versões possíveis, assim, é estendida com leveza ao passado. O que antes, obrigatoriamente, deveria ser narrado como uma tragédia, hoje, pode ser visto até como algo cômico. Num mundo onde não existe mais a tensão entre os dois grandes polos antagônicos, o fardo da história não assombra mais a consciência do historiador, pois, onde estarão os inimigos? Contra quem lutar? E por quem? A sujeição da classe industrial, no século XIX, sobre o operariado das fábricas inglesas tornou-se um momento histórico específico, sem relação com as experiências passadas de lutas entre classes. As conexões entre um e outro foram rompidas. Agora, o que temos são histórias descontínuas, sem grandes periodizações. O passado se aliena de nós, ao mesmo tempo em que nosso horizonte de expectativa se expande. As consequências ainda são incertas, mas, numa análise parcial, podemos enxergar ganhos e perdas, inovações e permanências desta herança. Cabe a nós todos trabalhá-la. blackdot

Referência:

MAFFESOLI, Michel. O instante eterno: o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. São Paulo: Zouk, 2003.

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